A porta da Universidade de Auburn se abriu há um ano e meio. Se sobrava vontade, faltava coragem para atravessá-la. O passo parecia grande demais para alguém que estava acostumado a treinar sob a orientação do pai, sem ninguém para dividir a raia ou as atenções do técnico, numa piscina em Vitória (ES). Foi assim que Arthur Mendes Filho se transformou no primeiro latino-americano a conquistar uma medalha de bronze nos 100m borboleta, no Mundial Junior do Peru em 2011, aos 17 anos. Foi assim que ficou perto do índice para Londres, foi assim que foi escolhido para integrar o projeto Vivência Olímpica do COB, com o objetivo de quebrar o gelo antes dos Jogos de 2016. A experiência foi boa. E ajudou o nadador a resolver arriscar. Há dois meses, decidiu aceitar o convite de Brett Hawke, ex-mentor de Cesar Cielo, para treinar e estudar Administração na pequena cidade americana. Chegou no comecinho de janeiro e já mostrou serviço, faturando uma prata em sua primeira competição em jardas.
Marcelo Chierighini e Arthur Mendes Filho (à dir.), os brasileiros de Auburn (Foto: Reprodução/Twitter)
A saudade de casa tem sido amenizada com conversas diárias na internet. Os novos companheiros de equipe também estão contribuindo para isso. Com Marcelo Chierighini, pode falar português. Com os demais, pratica o inglês e aprende a emprestar olhos e ouvidos aos nadadores mais velhos. Tyler McGill é um deles. Dono de um bronze no Mundial de Xangai, sexto colocado nos 100m borboleta em Londres e ouro no 4x100m medley (nadou as eliminatórias), McGill foi escalado pelo treinador para trabalhar junto com Arthur todos os dias.
- Tyler é um exemplo para mim. Está me ajudando com viradas, fundamentos. Não o vejo muito como adversário. Mas o vendo todos os dias, a gente consegue imaginar que dá para chegar lá e fico muito motivado. Desde que cheguei aqui, senti a equipe bem unida. Todos me receberam muito bem e compensam a falta da família. Qualquer coisa que preciso, eles oferecem ajuda. O sentimento é de família e daquelas bem unidas. Eu precisava tomar coragem de mudar. Meus pais me apoiaram muito a tomar a decisão. Aqui eu teria a chance de conciliar estudo e natação, e fazer os dois bem. Vou ter a oportunidade de melhorar e de aprendizado também. Ganhei bolsa, mas meus pais ajudam bastante também. Tem investimento deles - disse.
De mudança, Arthur entende bem. Filho de pai militar, ele nasceu em Cáceres, no Mato Grosso, passou por Cruzeiro do Sul, no Acre, e morou em Vitória. Durante esse período, foi do vôlei ao futebol. Apesar do nome de craque e de torcer pelo Flamengo, achou por bem trocar o gramado pela piscina. Não se arrepende. Brett Hawke não tem dúvidas de que fez a escolha correta.
Arthur Mendes Filho e seus companheiros de equipe em Auburn (Foto: Reprodução/Twitter)
- Arthur aprende muito rápido. Ele está muito determinado a melhorar e contribuir com a equipe. Na verdade, fiquei surpreso com o espírito de equipe com que ele chegou. Tudo o que ele pensava quando chegou era "como posso ajudar minha equipe". Fiquei contente de ver isso. O tempo longe da família é sempre difícil, mas eu posso dizer que Arthur se adaptou rapidamente. Também é muito bom ter o Marcelo na equipe, porque ele o ajudou a se adaptar e se sentir em casa em Auburn. Acho que o pai de Arthur fez um trabalho excelente em prepará-lo. Ele é muito disciplinado e tem um desejo real de agradar a todos que estão ao seu redor. Também é bom ver que tem baldes de talento e que seu corpo é perfeito para o nado borboleta. Eu posso vê-lo como uma ameaça real em três anos! - elogiou o técnico australiano.
Ele é muito disciplinado e tem um desejo real de agradar a todos que estão ao seu redor. Também é bom ver que tem baldes de talento e que seu corpo é perfeito para o nado borboleta. Eu posso vê-lo como uma ameaça real em três anos!"
Brett Hawke
Brett também viu potencial de sobra em Cielo. Conhecido por ser um técnico observador, que sabe tirar exatamente o melhor de cada um de seus atletas, conseguiu uma sintonia fina com o velocista que ajudou a transformá-lo em campeão olímpico nos Jogos de Pequim 2008. Com ele, a força mental do recordista mundial dos 50m e 100m livre aflorou e se tornou um de seus pontos fortes. E Arthur já começa a sentir uma transformação nesse sentido.
- O Brett já me ajudou bastante no lado psicológico, porque eu estava bem nervoso. Falou em melhorar, acalmar, botar a cabeça no lugar e treinar muito. A metragem que faço aqui é a mesma. A diferença é que tem mais gente na raia. Agora faço força que não tinha. Nado bem forte para não chegar atrás. Não estou sentindo muito a mudança de técnico porque Brett e meu pai têm personalidades parecidas. Puxam orelha, querem que você dê o máximo no treino e que não desista nunca. Meu pai é um ótimo técnico, formado em Educação Física, mas agora vai poder exercer só o trabalho dele no escritório de advocacia.
Arthur surpreso ao ver o terceiro lugar no placar no
Mundial Junior de 2011 (Foto: Satiro Sodré / CBDA)
Aos 19 anos, Arthur é cauteloso. Diz que precisa dar um passo de cada vez para chegar aonde deseja. E não se importa em deixar de lado atividades que costumavam animar seus dias de folga e que ele não encontra na pequena cidade do Alabama. Por lá, como dizia Cesar Cielo, "é treinar, estudar, dormir, treinar e estudar".
- É, aqui é nadar e estudar mesmo. Não tem nada para fazer. Ou você vai ao cinema ou fica em casa. Quando eu estava no Brasil sempre ia a praia, andava de skate e de bicicleta. Aqui nem isso dá para fazer porque está sempre chovendo e frio (risos). O que importa é que estou aprendendo bastante. Vim para cá porque a equipe tem bons nadadores de nível internacional, que já pegaram finais olímpicas. O fato de Cesar também ter sido campeão treinando em Auburn também pesou. Chegar bem aos Jogos de 2016 continua sendo um sonho para mim. Depois do Mundial Junior, melhorei muito em seis meses e fiquei perto do índice para Londres, o que foi uma supresa para mim e uma motivação extra. Então, tive vontade de abrir horizontes. Quero agora ir bem nas competições daqui, ajudar minha equipe a ser novamente campeã e depois pensar nos campeonatos brasileiros. Tenho que dar um passo de cada vez.